Abril 12, 2010

Este blog existe exclusivamente para servir de homenagem singela ao grande artista brasileiro Melgaço. Em função disso, fiz-me valer de uma mulher rosiana, Otacília. Deixo todas as grandes veredas nas quais ambos se encontram e se fundem num Ser Tão infinito a ser também abraçadas por cada um de Vós agora a me visitar (baseado em “Mulheres Rosianas” de Adair de Aguiar Neitzel e concebido a 27 de Junho de 2008. Quero deixar registrado aqui que gosto muito do logotipo de WordPress, um ‘W’ inserido em um círculo. Se o girarmos – – veremos a letra ‘M’ no centro da letra ‘O’. Ou seja, O.M., as iniciais de Otacílio Melgaço. Tudo é a Ponta de um Mistério)

Otacília: a busca

da unidade perdida

Na constelação amorosa criada por Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, deparamo-nos com o amor em vários aspectos. Deter-nos-emos em analisar um relacionamento que sugere mais do que um simples envolvimento físico ou emocional entre dois seres. Trata-se de um ato de devoção apaixonada: o encontro de Riobaldo e Otacília. Entre ambos se estabelece um vínculo íntimo, configura-se uma “erótica celeste”, onde o exercício do amor se confunde com a oração e a salvação pela purificação. Otacília alimenta em Riobaldo a esperança de reordenação do caos, condição para alcançar a beatitude humana. A espiritualidade luminosa de Otacília o eleva ao sagrado: “Os de todos lindos olhos dela estavam me assinalando o céu com essas nuvens” (ROSA, 1986). Ela se mostra como uma abertura para um universo sobrenatural, transcendente. Por isso, as ações de ambos não são orientadas para comportamentos da atividade fisiológica e superam o desejo sexual. Desponta um amor sublime entre Otacília e Riobaldo, mas bem divergente daquele existente entre Riobaldo e Nhorinhá — amor também nitidamente traçado na memória do jagunço. Atraído pela proteção angélica e pela expressão meiga de Otacília, Riobaldo vive uma outra forma de amor: “Que quando só vislumbrei graça de carinha e riso e boca, e os compridos cabelos num enquadro de janela, por o mal aceso de uma lamparina. (…) Minha Otacília, fina de recanto, em seu realce de mocidade, mimo de alecrim, a firme presença”(ROSA, 1986). Tal amor mitiga suas dores e dissemina esperanças, refletindo uma crença positiva na vida, mas também aponta suas limitações, acentua seu conflito nas relações com o mundo, estabelecendo uma tensão entre o universo jagunço e aquele em que vive sua amada: “Assim igual eu Otacília não queria querer” (ROSA, 1986).

Sendo Otacília a face pura do amor, ele se sente, muitas vezes, indigno de recebê-la. Ela é símbolo de estabilidade, atributo que se contrapõe ao “homem provisório” que é o jagunço. Otacília é uma figura que, sob uma ótica superficial, apresenta a face das costumeiras personagens que figuram nos contos de fada e/ou nos romances de cavalaria. O encontro com ela tem a marca de uma narrativa maravilhosa, em que o cavaleiro medieval parte em nome de nobres valores e mantém, no decorrer da cruzada, uma recordação terna por uma dama pura e casta, que despertou sua devoção e provocou uma promessa de retorno. Essa seria uma ilustração grotesca da narrativa em estudo, pois esse encontro de Riobaldo e Otacília tem também sua responsabilidade iniciatória, não é apenas uma narrativa epidérmica. Os atributos de Otacília não se restringem a sua capacidade de sedução; sob sua conduta, se esgarça uma linguagem oculta e simbólica. Esse amor segue além dos contornos de um envolvimento platônico, perfilando a idéia do “amor total”, um amor não abalado pelo dualismo do sensível e do inteligível, que não separa o corpo e a alma, cujo centro gravitacional se localiza no próprio objeto do amor, indivisivelmente físico e espiritual. A construção de Otacília parece ser a repetição do mito intemporal da Grande Mãe Cósmica e consoladora, que abarca e envolve tudo, na busca pela hierogamia. É ela quem trata de reinstalar Riobaldo na paz de seu útero eterno.

Ela se inscreve também na galeria de arquétipos como Sofia — símbolo da Sabedoria — que suscita a positividade, a alegria e o renascimento — características das mulheres rosianas. Otacília — imagem de dama casta e frágil, mas que brota forte no sertão árido — desperta em Riobaldo uma atitude sempre admirativa e contemplativa. Ao descrevê-la, ele usa qualificativos que remetem ao puro, e os atos dela aparecem associados a ações litúrgicas: “Só olhava para a frente da casa-da-fazenda, imaginando Otacília deitada, rezada, feito uma gatazinha branca, no cavo dos lençóis lavados e soltos, ela devia de sonhar assim”(ROSA, 1986). Ela é presença de inocência, mas também de mistério. Riobaldo a compara ao rio — presença constante em sua vida — : “Otacília sendo forte como a paz, feito aqueles largos remansos do Urucuia, mas que é rio de braveza. Ele está sempre longe. Sozinho” (ROSA, 1986). Rio que é “figura de primeira grandeza” (CAVALCANTI PROENÇA, 1973) nessa narrativa. “Poderíamos, até, dizer que o rio é mais importante que o homem, pois este o liga a suas emoções, dele se vale para dar corpo às suas idéias, associa-o a seu próprio destino de jagunço, de amoroso e de místico”(CAVALCANTI PROENÇA, 1973). Essa analogia de Otacília com o rio é coerente, pois ambos possuem a qualidade de regeneração e purificação, ambos se tornam instrumentos de libertação. A atuação de Otacília compara-se à do rio: mansidão que pode esconder braveza, inspirando veneração e temor, pois indica a vida ou a morte. “O rio simboliza sempre a existência humana e o curso da vida, com a sucessão de desejos, sentimentos e intenções, e a variedade de seus desvios”(CHEVALIER, 1995). Otacília mergulha na vida de Riobaldo: “Sofreado de minha soberba, e o amor afirmante, eu senti o que queria, conforme declarado: que, no fim, eu casava desposado com Otacília — sol dos rios…”(ROSA, 1986).O rio toma o significado de corpo: entrar no rio é mergulhar no outro. A utilização dos elementos naturais, principalmente o rio, como indício da formação da personagem invoca o caráter ambíguo dos mesmos. Se Otacília é porto seguro, lugar onde os redemoinhos do destino puxam menos, sua figura também anuncia uma outra face, bem diversa dessa primeira. Uma pulsão conflituosa se arrima: vida e morte. Um jogo de tensões se agrega, e um aspecto duplo se esboça: Eros pode ser ameaçado por Tanatos. Por isso, a expressão do amor aparece entrecortada pela dor e pela morte. Num átimo, podemos relacioná-la também com a figura de Ariana, síntese da mulher total: mãe, irmã, esposa, noiva, a bem-amada (termo de origem cretense, significando Ari = muito, e Hagne = Santa). Mito de mulher única, grande, forte, mas que em sua totalidade apresenta também sua face temerosa. Face esta apenas insinuada por Riobaldo, mas que não se avulta. O encontro entre Riobaldo e Otacília desperta nele um sentimento manso, sem aspirações ou desejos carnais. Sua voz precisa impressioná-la, cativá-la. Ele sabe que o tratamento que deve dirigir a Otacília é outro: “Me airei nela, como a diguice duma música, outra água eu provava”(ROSA, 1986). Ele confessa: “De moça-de-família eu pouco entendesse”(ROSA, 1986). É o belo uso da palavra que novamente irá favorecê-lo. Um diálogo afetuoso e filial, mas que não está isento de uma certa respiração amorosa. Rasgos de lirismo são perceptíveis quando Riobaldo fala da natureza. Ele busca compartilhar com a amada uma visão paradisíaca: “Aí, falei dos pássaros, que tratavam de seu voar antes do mormaço. Aquela visão dos pássaros, aquele assunto de Deus”(ROSA, 1986).Ele usa do poder encantatório e sedutor das palavras para sensibilizar sua amada, e refletir sua parte “não-jagunça.” O amor, que Otacília destina a Riobaldo, não é aquele que apenas certifica a continuidade das espécies, mas o que tem a força de provocar a coesão interna do cosmos, amor como centro gravitacional e unificador. O encontro de ambos reflete a união dos opostos, coincidentia oppositorum, pois formam pares antagônicos, cujo enlace torna-se possível graças à natureza telúrica de Riobaldo — vinculado à terna imagem da mãe Bigri e à presença constante de Diadorim, que lhe descortinou um universo mais próximo do feminino. Há uma série de trocas espirituais nesse contato, e, apesar de seus universos contrários, o amor vence esses antagonismos, integrando-os. Ambos transcendem, portanto, o grau da animalidade. Riobaldo experimenta um amor diferente, um relacionamento que tranqüiliza. Plantado o germe da adoração e alçado por um júbilo célico, “pede seu destino a Otacília”, procurando aprofundar essa vivência primeira, aspirando a uma totalidade. Ao lado dela, busca lastros de uma realidade que o ligue também a uma linhagem nobre de família, distante e por vezes esquecida. Ao abrigo dessa idéia, demonstra preocupação com sua progênie, pois se vê num espaço regrado por determinações sócio-econômico-culturais bem divergentes. Alça-se, então, na recuperação de elementos esparsos de um passado adormecido, rememorando sua descendência com orgulho: “E eu não medi meus alforjes: fui contando que era filho de Seô Selorico Mendes, dono de três possosas fazendas”(ROSA, 1986). Essa união cordial deflagra uma nova possibilidade de vida, um momento singular: a perspectiva de seu distanciamento da jagunçagem. Uma aliança com Otacília pode lhe devolver o contato com o mundo civilizado e introduzi-lo num mundo que reflete os costumes urbanos. A fazenda Santa Catarina é um espaço que ele observa e cujos requintes ele admira. Gostou, por exemplo, de lá encontrar um jardim caprichado e de tomar café à mesa, em “xicrinhas”. Otacília lhe propiciará, também, um deslizamento para um território de chefias potentes, mas distante do guerrear. Riobaldo conhece as dimensões do poder e do prestígio que a família de Otacília possui. Numa sociedade como a sertaneja, muito próxima da medieval, a posse de terras constitui símbolo de riqueza e de status: “Não que eu acendesse em mim ambição de teres e haveres; queria era só mesma Otacília(…) e, no meio do solene, o sôr Amadeu, pai dela, que apartasse — destinado para nós dois— um buritizal em dote, conforme o uso dos antigos”(ROSA, 1986). Cena que nos remete à Idade Média, quando o casamento estava estreitamente ligado a valores de linhagem, à transmissão de títulos e de herança. Otacília mantém durante toda a obra a condição de “donzela”, cujos predicativos morais produzem um deslumbramento em Riobaldo: “Otacília, estilo dela, era toda exata, criatura de belezas”(ROSA, 1986). Apresenta-se como um ser imaculado, cândido, dotado de virtudes que revelam um espesso verniz cristão; sua conduta é elevada ao cume da moralidade ideal. Uma descrição que cria uma impressão e se afina; uma personagem que tem características das damas feudais lendárias: nobreza, beleza, doçura, bondade, formando um conjunto de visões que escoa para o idealizado: “Abrandei minha lembrança em Otacília, que sincera me aguardasse, em sua casa, em seu meigo estar”(ROSA, 1986).

Um perfil feminino bem distante dos outros que desfilam no universo jagunço. A relação entre ambos situa-se pois, na estreita fronteira entre o amor cavalheiresco e o amor cortês cantados pelos trovadores nos séculos XII e XIII. Entre Riobaldo e Otacília não paira nenhum artifício de satisfação sexual, porque, erigidos a um grau superior — distante do carnal — a doação pode ser total e ilimitada. O amor puro e ingênuo que os une surge de forma muito diferente das outras manifestações de sua mocidade ou de sua vida jagunça. Essa aliança complacente avizinha-se de uma proteção paterna e cavalheiresca, nos limites entre Eros e Ágape. Entre ambos constrói-se um amor leal. Otacília oferece fidelidade e doação constantes, e recebe de Riobaldo forte mimo e proteção: “E ela, por alegria minha, disse que havia de gostar era só de mim, e que o tempo que carecesse me esperava, até que, para o trato de nosso casamento, eu pudesse vir com jus”(ROSA, 1986). Em Otacília, reconhece-se um tom religioso, uma visão sobrenatural que identificamos com a figura de Maria — mãe de Jesus: “Otacília, era como se para mim ela estivesse no camarim do santíssimo”(ROSA, 1986). Nela podemos conceber a representação do culto marial cultivado pelos cristãos a partir, aproximadamente, do século IX, instigado pelas cruzadas. Uma veia aberta explorada também pelos cátaros, que se proliferou no Ocidente Europeu Cristão, no final do século XI. Essa imagem de mulher pura que a Virgem Maria representa foi paradigma desde o século IX e se cristalizou na cultura ocidental. Os cátaros e os trovadores contribuíram de fato para a elaboração de toda uma “mitologia da Mulher e do Amor”. “A ‘firme presença’ de Otacília, na memória de Riobaldo, é um equivalente da inspiração e da fortaleza que os cavaleiros andantes encontravam cultuando as suas senhoras e damas, às quais dedicavam a valia de seus feitos”(NUNES, 1976). Notamos que quando Riobaldo ousa descrevê-la, enaltecendo seus atributos físicos — ação que a mantém ao plano terrestre — ele próprio se censura: “Ela era risonha e descritiva de bonita; mas, hoje-em-dia, o senhor bem entenderá, nem ficava bem conveniente, me dava pejo de muito dizer”(ROSA, 1986). Otacília, mergulhada num mundo mágico e divino, surge segundo o arquétipo de Maria, propiciando um processo de transfiguração de uma situação profana em uma realidade sagrada. Maria é ingrediente vital de uma história que mantém até os tempos modernos seu poder de santidade. Salvaguardando alguns princípios morais, ela se tornou bússola do homem, que procura nos paradigmas de comportamentos a conversão. Em sua maneira de ser e de ver, Otacília reflete uma postura marial: ela estima e conserva os bens do espírito e expressa uma série de atitudes marianas típicas como a escuta da palavra, a oração, a oferta, o conforto espiritual, além de condensar a espiritualidade da espera, de que Maria é modelo para a Igreja. Otacília é uma mulher devota, que determinou fazer de sua vida uma oferta a favor da conversão de Riobaldo, e é principalmente através da oração que sua presença e força se manifestam. Diadorim pede-lhe inclusive que ore pela salvação e pelo destino de Riobaldo: “Pedi a ela que rezasse por você, Riobaldo… Assim pela esperança de saudade que ela tivesse, que não esbarrasse de rezar, o todo tempo, por costume antigo…”(ROSA, 1986). Também as várias recordações que o jagunço mantém de sua amada surgem geralmente relacionadas à oração: “Otacília no quarto, rezando ajoelhada diante de imagem, e já aprontada para a noite, em camisola fina de ló”(ROSA, 1986). O amor estabelece assim, sua relação com a oração, uma vez que ambos apresentam seu caráter de oferta e de acolhimento. Ela mantém-se numa vida monástica, de existência marginal à jagunçagem, além da esfera da sexualidade. Sua representação se distingue das outras vivenciadas pelas meretrizes, mulheres casadas e “meninas ensinadas” do sertão. Ela se diferencia da experiência da vida diária, assinalando uma perspectiva religiosa. Otacília foge da realidade do jagunço e reage num ofício quase litúrgico, encarnando esse ideal, essa imagem exemplar de Maria. E esse prolongamento do culto marial transfere para ela uma auréola cristã; esse comportamento religioso de Otacília é alimentado no decorrer da narrativa, principalmente por seu caráter casto e por sua ligação direta com a oração. Numa remissão ao Paraíso sobre a Terra — missão escatológica do mito marial — encontramos Otacília vivendo de acordo com o ideal cristão definido no final do século IV, quando a virgindade — de significado escatológico — era a garantia da ascese, o retorno à origem. A continência foi uma imposição religiosa cristã que gravitou numa problemática da superação da alma sobre o corpo e suas concupiscências. A castidade constituiu, durante longos séculos, tema do cristianismo, apanágio para a existência de um modelo exemplar. Maria é, portanto, a fonte primacial, matriz e nutriz de onde jorrou a recuperação de um tempo sagrado, baseada na memória das existências anteriores e de rememoração de uma história primordial, relacionada ao mito cosmogônico, um retorno à origem, à raiz, tão perseguido por Riobaldo. Otacília viabiliza essa sua passagem e reintegração à fonte, ao centro. E se Maria representa o triunfo de uma história santa Otacília revela o valor religioso de atos humanos. Além de fazer parte de um grupo eleito para viver uma eterna beatitude, ela anuncia um universo real com sua potência sagrada que quer dizer, ao mesmo tempo, realidade, perenidade, eficácia. Riobaldo, ao unir-se a Otacília, estabelece um elo com a realidade e, conseqüentemente, com o poder (para os primitivos, lembra ELIADE, o sagrado eqüivale a poder). Maria é divinizada por sua maternidade espiritual. Para que ela acontecesse, segundo a doutrina cristã, foi necessário estabelecer-se uma relação de um ser divino, superior, com um ser humano, inferior. Encontramos também essa hierogamia em Grande Sertão: Veredas. O próprio Riobaldo se considera inferior e indigno de Otacília, não só por sua condição de jagunço — tão adversa da situação de posses da família da noiva — mas pela vida desnorteada, desregrada que tem. Funde-se assim, uma relação entre o divino e o profano. O alto e o baixo, o sujo e o puro, o rico e o pobre se confundem. Riobaldo pertence ao mundo concreto da carnalidade, e Otacília ao universo puro da virgem Maria. Essa maternidade espiritual em Otacília equivaleria a uma recriação mágica do mundo, um prodigioso jorrar de energia, de otimismo, de vida. Otacília gera um mundo de luz, é mater que espargi vita. Sua imagem está prenhe de um simbolismo cósmico-vital; dela emana uma beleza que o toca profundamente. Ela é portadora de um conhecimento, de uma luz espiritual que aponta para um projeto salvífico, como Maria.

O espaço onde o encontro acontece apresenta uma veia sagrada: uma fazenda denominada Santa Catarina, situada nas Serras dos Gerais — Buritis Altos, cabeceira de vereda. Ora, não são também os montes os lugares escolhidos para as grandes revelações bíblicas? Além do mais, são lugares privilegiados, longe de catástrofes terrestres como inundações, distante também dos que rastejam no mundo inferior. E aquele que neles constrói seu reino mais perto das alturas se mantém. Trata-se, talvez, de uma metáfora para indicar Otacília como ponte entre o mundo terrestre e o celestial. O encontro entre Riobaldo e Otacília dá-se em maio. Este é o mês, por tradição popular, considerado mariano. No calendário religioso católico, celebra-se nesse mês um dos eventos da vida de Maria que é festejado com o grau de festa: a Visitação da bem-aventurada Virgem Maria. A fazenda situa-se, pois, num espaço sagrado fundamental para que a jornada a qual Riobaldo se propõe tivesse êxito. Ela é um centro, um ponto fixo absoluto, que possibilita a fundação do mundo, o viver real. Lá, Riobaldo tem a revelação de uma outra realidade, semelhante àquela de que participava antes de ingressar na vida jagunça. A porta aberta da casa de Otacília significa uma solução de passagem; em seu interior, o mundo profano é transcendido. A fazenda, é assim a “porta” para o alto pela qual Riobaldo pode subir simbolicamente ao Céu, assegurando a comunicação com o mundo divino. E é a situação espacial da fazenda, acrescida do comportamento e das virtudes de Otacília, que torna esse território qualitativamente diferente. Um espaço no alto, “comunicante com o Céu”, com atributos de um santuário: “a teofania consagra um lugar pelo próprio fato de torná-lo ‘aberto’ para o alto, ou seja, comunicante com o Céu, ponto paradoxal de passagem de um modo de ser a outro”(ELIADE, 1992).

Podemos também fazer uma analogia da Fazenda Santa Catarina com a “Montanha Cósmica.” Ela é a figura mais representativa entre as imagens que revelam uma ligação entre o Céu e a Terra. Culturas como a do Meru na Índia, de Haraberezaiti no Irã, da montanha mítica “Monte dos Países” na Mesopotâmia, de Gerizim na Palestina preservam essa mística e cultuam a idéia de que elas se encontram no Centro do Mundo. Outra similaridade no que concerne à cosmização desse território sagrado é com o ” Pilar Cósmico” — símbolo de sacralidade para as tradições dos Achilpa, uma tribo Arunta. Esse poste permitiu que os Achilpa se deslocassem em suas peregrinações constantes sem perderem o eixo de seu mundo. Da mesma forma, a fazenda Santa Catarina representa um eixo cósmico que permite a Riobaldo — enquanto faz sua travessia no sertão — estar sempre naquele universo guerreiro, e ao mesmo tempo em ligação com o Céu. Eis sua função cosmológica: “Porta do mundo do alto”, bússola para nosso jagunço, abertura para o transcendente. Além do mais, há um simbolismo explícito no nome: Catarina é derivado do grego katharós, que significa pura, antropônimo que vai ao encontro das características daquele lugar que é uma réplica de um cosmos perfeito: “… ela eu conheci em conjuntos suaves, tudo dado e clareado, suspendendo, se diz: quando os anjos e o vôo em volta, quase, quase”(ROSA, 1986). A fazenda estabelece, assim, a comunicação entre as três zonas cósmicas: a Terra, o Céu e o Mundo Inferior. Entretanto, para compartilhar desse território mundificado, depurado, em que vive Otacília, Riobaldo precisa primeiro reordenar o mundo jagunço e seu âmago conflituoso. Nessa travessia, na expectativa de encontrar-se, Riobaldo depara-se com vários amores que contribuem para seu crescimento espiritual. Ele se entrega, portanto, primeiro à dispersão e à fragmentação. Mas nesse encontro com mulheres várias, o que ele persegue é a unidade perdida. Sua entrega profusa aos prazeres da carne é um sintoma dessa inquietação pela unidade. O aparecimento de Otacília tem, como já citamos, um valor salvífico. Ela representa para Riobaldo a oportunidade de deslizamento da diluição e de reunião dos fragmentos. É esse encontro que dá sentido à permanência de Riobaldo na jagunçagem e a seu posterior abandono. Ele, adentrando aquele mundo “sem fundos”, produz um itinerário de conflitos e descobertas, mas também persegue a renovação do mundo e sua conversão — reiteração da cosmogonia. Riobaldo manifesta o desejo de viver num universo total e organizado, num cosmos e não num caos. E a presença de Otacília desencadeia uma irrupção do sagrado que projeta um ponto fixo no espaço profano em que ele vive. É ela, também, quem possibilita a sua transição, daquele seu modo de ver e ser no mundo da jagunçagem a outro bem diverso. Essa sacralidade, muitas vezes distante do mundo jagunço, ronda a memória de Riobaldo, alimentando-a com “coisas amanhecentes”: “Meu coração rebateu, estava dizendo que o velho era sempre novo”(ROSA, 1986). E a luminosidade que irradia dos olhos de Otacília o guia pelo sertão: “ela com sua cabecinha de gata, alva no topo da alpendrada, me dando a luz de seus olhos” (ROSA, 1986). Sertão onde ele teve que conhecer as dores e o sofrimento que toda conversão requer. O projeto principal — a luta pelo Bem — sustentou e deu um sentido elevado a sua existência dentro do bando de Joca Ramiro. Riobaldo lutou pela reintegração desse universo, pela ordenação do caos. Com a morte do pactário Hermógenes, sua missão encerrou-se. Confuso, indefeso e desvalido com a revelação da verdadeira sexualidade de Diadorim, ele se retrai. Mas o amor e a presença de Otacília propiciam seu retorno à vida, pois “o amor é a busca de um centro unificador que permitirá a realização da síntese dinâmica de suas virtualidades. Dois entes, que se entregam e se abandonam, reencontram-se um no outro, mas elevados a um grau superior de ser, se a doação tiver sido total, e não apenas limitada a um certo nível de sua pessoa, que é, na maioria das vezes, carnal”(CHEVALIER, 1995). Sua volta à fazenda equivale ao desejo de viver num mundo real e não numa ilusão, pois viver no sagrado corresponde a não se deixar paralisar pelas experiências puramente subjetivas. Seu retorno exprime uma sede de transcender aquele tempo histórico, aquela situação profana. Otacília consegue lhe proporcionar um compasso de alívio no coração. Há, portanto, a cooperação de Otacília na recuperação de Riobaldo. Ela lhe oferece uma visão serena, e seu fiat lhe transmitiu esperança de vitória sobre o pactário e de comunhão com o divino. Ela é a porta aberta para a superação das perspectivas eternas sobre as temporais, da vida sobre a morte — presença constante no itinerário demarcado por Riobaldo. Chama emancipadora, seu poder é meritório: “O que uma mocinha assim governa, sem precisão de armas e galopes, guardada macia e fina em sua casa-grande, sorrindo santinha no alto da alpendrada…”(ROSA, 1986).

Durante a travessia, Otacília “sobre a alma do jagunço exerce um efeito purificador”. Seu conspecto é inspiração de uma outra vida; seu amor — mais próximo da razão — o encaminha ao princípio pelo qual foi gerado. Amor restaurador que constitui a apoteose final do romance. Riobaldo, ao retomar a aliança que estabeleceu com Otacília, “encontra na matriz feminina a promessa de sobrevida e de renovação”(ROSENFIELD, 1993). Esse amor — força ascendente — o move a um percurso venturoso; num processo de amadurecimento, reencontra os vestígios da luz divina original — luz eterna — verdadeira origem do homem. Esse retorno à origem é o elemento essencial que Riobaldo persegue, e acontece quando ele se libera de todo subjetivismo que o cerca, passando do conhecimento inicial para uma experiência mais profunda, o que o leva a concluir que “Existe é homem humano. Travessia”(ROSA, 1986)

Otacília: A representação

da imagem mítica de Maria

Sobre Otacília, Benedito Nunes escreve no seu famoso ensaio, O amor na obra de Guimarães Rosa: “Otacília, ‘forte como a paz’, é apenas uma lembrança, imagem ideal colhida, de passagem, num pedaço de sertão, e que sobre a alma do jagunço exerce um efeito purificador, levando-o a sonhar com uma vida outra, fora das andanças de guerrear e pelejar. (…) À Otacília, o valente Tatarana, depois Urutu Branco, dedica pensamentos enlevados, como se, através da rememoração, às belezas do corpo dela se acrescentasse, imediatamente, um encanto suprasensível, oriundo de uma outra beleza, mais elevada e mais pura. Par conquisatar essa outra beleza, para alcar-se até aquela imagem de paz, que se assemelha aos remansos do Urucuia, e que dorme em sua alma como secreta reminiscência, de quando em quando depertada, Riobaldo deverá pagar tributo à sensualidade de Nhorinhá — sensualidade que não o detém, e que lhe serve de escalada, de via de acesso em direção a Otacília.(…) Dama inspiradora de Riobaldo, consoladora e mediadora em seu espírito de uma outra vida — vita nuova — cheia de calma e paz, apenas vislumbrada, Otacília misto de princesa e castelã, dona de territórios imaginários, perdura na alma como objeto ideal, fonte de permanente e constante aspiração, como símbolo do termo onde finda a busca amorosa e o destino se completa. (…) Por outro lado, em fortalecimento das afinidades entre o poeta da Divina comédia e o criador de Grande sertão: veredas, lembramos a figura de Otacília, semelhante a uma Beatriz consoladora, cuja lembrança sossegada guia Riobaldo nas passagens sombrias de sua grande aventura e nele faz nascer a expectativa de um fim plenificador de seus desejos, estado de felicidade quieta, com fecho venturoso de uma sequência de erros e enganos, de casuais descaminhos, que finalmente se retificam, e deixam entrever o caminho que se insinua através deles. Extraviando-se em ‘selva escura’, o florentino, sem o saber, está buscando Beatriz, e é Beatriz quem o conduzirá, pelas mãos de Virgílio, ao Paraíso da vida espiritual. Em nota de rodapé, Benedito Nunes afirma: “A ‘firme presença’de Otacília, na memória de Riobaldo, é um equivalente da inspiração e da fortaleza que os cavaleiros andantes encontravam cultuando as suas senhoras e damas, às quais dedicavam a valia de seus feitos. Pois não é o geralista Riobaldo o Amadis de Gaula dos sertões, e Otacília uma transposição de Oriana para a ardência dos Gerais? O paralelo entre o personagem central de Grande sertão: veredas e os heróis dos romances de cavalaria já foi estabelecido por mais de um ensaísta. Ver M. Cavalcanti Proença(Trilhas no Grande Sertão”in Augusto dos Anjos e outros ensaios, Rio de Janeiro, José Olímpio, 1959) e Antonio Cândido (“O sertão e o mundo, in Diálogo, nº 8).” NUNES, Benedito. “O amor na obra de Guimrães Rosa” In O dorso do tigre. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1976.

Maria Clara Pereira

(Queluz/Portugal)

em homenagem a

Otacílio Melgaço

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